Em meu desespero, pensei ser talvez um feitiço ou maldição que aquele ser com asas e olhos flamejantes trazia em si. Aquilo era o próprio diabo em forma de animal ou, com certeza, alguma criação sua. Talvez, se eu o matasse conseguiria voltar ao normal. Mas, não podia sair de casa assim, com essa deplorável aparência. Então, esperei durante todo o dia pela hora habitual da criatura aparecer na praça. Vesti o maior sobretudo que possuía, que agora arrastava-se no chão. Por baixo, um moletom com capuz, o qual coloquei sobre a cabeça junto com um boné. Dentro do sobretudo, a espingarda e a munição.
A quantidade de roupa para meu, agora, tão franzino corpo atrapalhava o andar, de modo que demorei cerca de meia hora a mais para chegar à praça, ela devia estar quase vazia. Atravessei o caminho de árvores até o meu banco habitual e me deparei com a cena mais nojenta e impressionante que já vi. Tudo parecia acontecer em câmera lenta, sentia que ia desmaiar. O tal pássaro, agora negro como uma graúna e grande como uma águia, estava sobre uma enorme pilha de aves e bichos mortos; aquele monte de cadáveres de animais devia ter uns dois metros de altura. Ele os devorava cheio de satisfação num quadro tão horrendo de sangue, terríveis sons, penas e pequenos órgãos dilacerados que vomitei ali mesmo. Tive a impressão que ele ria. Seria de mim ou de prazer?
Foi então que notei algo que fez parar meu coração por alguns instantes. A dor que senti ao ver aquilo é inexplicável, a dor de ver o seu osbcuro destino. Na cabeça da ave, logo acima de seu olho esquerdo, havia três grossas cicatrizes paralelas, marcadas e sem penas que as cobrissem. No meu mais alto grau de loucura, desespero e medo, puxei a espingarda e atirei no animal. Atingi-o no peito e vi jorrar o sangue que tanto parecia com a cor de seus olhos. O ser abriu suas imensas asas negras e voou para onde eu já não podia vê-lo. Senti-me perdido entre as roupas que me sufocavam, estava encolhendo a olhos nus. Ao observar meus pequenos e tão finos braços vi que alguns pontos duros haviam pulado para fora. Deus me perdoe, mas aquilo eram penas saindo dos meus poros. Percebi que estava fadado a transformar-me naquele ser horrendo.
Tentei voltar ao meu apartamento, me arrastando com todo aquele volume de tecido tão pesado, decidido a me matar nesta noite, pois jamais aceitaria tornar-me essa nojenta criatura. O percurso foi difícil e já quase não alcançava a porta para abri-la. Ninguém me notava? Todo meu corpo doía com o brotar das penas nos pontos pretos em cada poro, fiquei nu e vi o quanto a saída delas me machucava e sangrava. Já não tinha coragem de me olhar no espelho. Aquilo drenava toda a energia que tinha, deitei-me na cama derrotado, assombrado, desesperado, pensando que o demônio existia, sim, e que ele havia me tocado. Fechei os olhos até que a dor me levou para um lugar tão distante, onde nem a consciência poderia me alcançar — Por favor, a senhora Wilma?
— Pois não, sou eu.
— Senhora Wilma, meu nome é William Dantes, sou chefe de polícia de Pademar.
— A cidade de papai. Deus do céu, o que houve com ele?
— Na verdade não sabemos, por isso estou ligando para você. Ele desapareceu. A cidade é pequena e todos se conhecem, então, espero que entenda a nossa preocupação.
— Senhor Dantes, não estou entendendo. Fred está com você?
— Fred? Ele não vem a Pademar desde que terminou o colégio.
— Meu Deus, senhor Dantes, meu irmão deveria estar ai com papai. Fred me ligou aos prantos de algum lugar em Curwen. Tinha visto algo terrível naquela cidade e precisava fugir de lá. Aquele lugar sempre teve fama de amaldiçoado, com tantos ciganos, e já ouvi relatos horríveis. Disse para ele sair dali imediatamente e ir ver papai, que ele o ajudaria. Isso foi há cerca de cinco semanas.
— Fred não veio por aqui, senhora Wilma. Acredito que ele mudou de idéia. Vou explicar melhor. Há dias que a dona da pensão onde seu pai morava não o via. Nem mesmo para fazer seus habituais passeios pela praça no fim de toda tarde. Ela bateu na porta e não obteve resposta alguma. Até que um cheiro terrível vindo do quarto do seu pai se alastrou pela pensão e a assustou. Por não ter coragem de abrir a porta sozinha, ela me chamou. Quando entramos no quarto havia roupas com manchas negras no chão, era sangue coagulado, acredito, mas, com um cheiro podre quase insuportável. Essas manchas também estavam no banheiro e sobre a cama. O mais estranho senhora Wilma, é que sobre as manchas na cama, estava um pequeno pássaro que se assemelhava a um pardal, só que um pouco maior. Nunca vi tal ave: onde a penugem deveria ser normalmente amarronzada em um pardal, ela era mais escura, quase preta. Ele estava com os olhos fechados e respirava com dificuldade. Toquei-o sobre a cabeça e ele abriu os olhos, que de tão vermelhos me fez gritar de susto, admito. Devo tê-lo assustado também, pois neste mesmo momento, ele voou rápido e com tanta força que quebrou o vidro da janela do quarto e desapareceu no ar. Nunca vi ave mais estranha e repugnante. E apesar de todos esses fatos estranhos, não sabemos nada sobre seu pai. Todas as coisas dele estão em seu lugar, inclusive sua carteira e documentos. Há também no quarto uma espingarda usada na região em tempos de caça para matar pássaros. Estava enrolada na roupa suja de sangue no chão. Na loja Arcor, dizem que ele a comprou há semanas.
— Senhor Dantes, tudo o que o senhor me diz não parece ter sentido. Meu pai era um homem calmo e caseiro, sua única diversão eram as idas a praça e nunca atiraria em qualquer animal que fosse. Não conheço também ninguém que o faria qualquer mal.
— Também não conheço, seu pai sempre foi muito reservado, mas nunca fez inimigos.
— E Fred já deveria estar com ele na cidade há semanas, a esta altura.
— É esse o motivo da nossa ligação, senhora Wilma. Também nada entendemos e não há rastros do seu pai em lugar algum. Tampouco alguém viu Fred na cidade e Pademar é tão pequena que se ele tivesse vindo por essas bandas, saberíamos no mesmo dia. Saberíamos também se alguém de fora viesse por aqui. Vejo que você também não tem nenhuma informação para nos ajudar.
— Não, infelizmente, não faço idéia do que tudo isso se trata.
— Lamento informá-la do estranho sumiço de seu pai. E pelo que vejo, de seu irmão também. Peço que caso se lembre de alguma informação, entre em contato imediatamente. Obrigada.
— Eu que agradeço, senhor Dantes.
Wilma não conseguia juntar nenhuma peça do quebra-cabeça do desaparecimento de seu pai ou do porquê de Fred nunca ter chegado a Pademar. Aquilo a assustava muito, pois Fred estava desesperado ao telefone. Ele não falava coisa com coisa, apenas algo sobre grandes aves negras e três ferimentos na sua testa. Dizia que precisava fugir dali. Pensou que ele estava de alguma forma delirando e pediu que fosse ver o pai, ele o ajudaria. Onde estariam os dois agora? Agarrou seu rosário e rezou para que estivessem bem e a salvo. Amanhã mesmo iria a Pademar, avisou ao marido. Naquela mesma noite, ela sonhou com dois pássaros negros como uma graúna e grandes como uma águia. Eles a observavam com seus olhos vermelhos e escuros através da janela do quarto. Aqueles olhos eram tão penetrantes, assustadores. O mais incrível é que eram familiares
Noossa demorei a ler,mais foi ótimo,amei esse texto! Parabéns pela escolha!
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